Quando eu era criança, tudo tinha limite. Podia ficar na casa do Lucas até as 18 horas. Televisão até as 22 e dormir no máximo até 22.30. Quando ia sair com meus amigos, tinha que dizer que hora iria voltar antes mesmo de saber aonde iria.
Sempre que ia fazer um trabalho, por exemplo, tinha que ser feito rapidamente, pois meu pai passaria ás 7 na portaria e ai de mim se não estivesse na porta. Esquecer de cumprir os horários combinados já fizeram com que meu pai me abandonasse sozinho no clube.
Isso limitava não só as horas dedicadas ao trabalho em grupo, como a qualidade do trabalho em si. Nunca saberei o que aconteceria se ficasse mais alguns minutos discutindo um assunto ou montando uma apresentação. Ter um horário para acabar as coisas, mexia com o elemento surpresa. Se estivesse no cinema com meus amigos e o filme atrasasse tinha 2 opções: bronca dos pais ou perder o final do filme.
Essas coisas podem parecer que são únicas ao universo infantil, mas o mundo adulto pode acabar sofrendo com isso. Existe em tramite, um lei que faria com que todos os jogos de futebol tivessem que terminar às 23 horas. Caso isso aconteça, os jogadores enfrentarão os mesmo problemas que enfrentei quando criança. E se o jogo estiver empatado e tiver que ir para disputa de pênaltis? Isso será feito no dia seguinte, na parte da manha? Essa ânsia que existiria de ter que encerrar o jogo às 23 horas por uma lei irá tirar a espontaneidade do futebol, sendo que é isso que o torna tão atraente. Será que os árbitros serão orientados a não expulsar nenhum jogador para não haver atraso? E os argentinos finalmente serão obrigado por lei a acabar com a tradicional cera, em jogos da libertadores, para que o jogo não passe das 23?
Dizem que tratar crianças como adultos não é o bom. Porém a retórica também não é verdadeira? Que adulto gostaria de ser tratado como criança? Se essa lei por ventura for aprovada, irá prejudicar o espetáculo do futebol e o deixará sem graça e monótono, transformando os jogadores adultos em criança, como na história do J.M. Barrie mas com a lógica invertida. NO livro há adultos que não querem ser adultos e agora existirão adultos que não querem ser crianças mas o serão contra a própria vontade. Eles terão horário para chegar em casa e não poderão fazer nada de diferente que possa atrasar o jogo, que o faça passar das 23 horas. E isso apenas tornará o futebol em uma caixinha, em que você já sabe tudo o que tem dentro.











